Caraíva no "JORNAL DA TARDE"
TURISMO / QUINTA-FEIRA 2 DE NOVEMBRO DE 2006
ANDRÉ PALHANO andre.palhano@grupoestado.com.br

(Artigo em html)
E se fará a luz
> Caraíva, um dos últimos redutos rústicos do litoral sul da Bahia,vai ganhar energia elétrica
Sem apagar’ as estrelas
Para servir de exemplo
“Achegada da luz com a fiação subterrânea é uma conquista”, diz Dante Coacci, dono da Pousada da Lagoa. “Um dos maiores problemas para o turismo sustentável é a chegada da luz, que costuma vir seguida de obras, trabalhadores e uma avalanchede turistas”, pondera. “Aí, a estrutura do local não suporta essa mudança, os turistas vão embora e sobra a miséria.” Conseguir apoio para instalar a luz subterrânea não foi tarefa fácil. Além do trabalho fundamental de conscientizar a população realizado pelo comitê Caraíva com Estrelas –, foi preciso convencer as autoridades e a companhia energética. Isso porque o gasto não é pouco. Um projeto de fiação subterrânea custa, em média, duas vezes mais que um convencional. O de Caraíva deve consumir R$ 3 milhões. As obras têm aval do Instituto Brasileiro do MeioAmbiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e já estão em andamento. “Este é um projeto inovador, que tem impacto ambiental significativamente menor do que a instalação de fios aéreos”, afirma José Augusto de Castro Tosato,superintendente do Ibama em Eunápolis, Bahia. “ importante que Caraíva sirva de exemplo a outras localidades.”
Em parte, a luz subterrânea só foi possível graças à formação geográfica da vila, característica que torna Caraíva semelhante a uma ilha. De um lado, há o rio que dá nome ao distrito e queo turista precisa atravessar para chegar lá. De outro, a maior reserva indígena pataxó da região, Barra Velha, que fica no Parque Nacional de Monte Pascoal, a apenas 6 quilômetros da vila. E, pela frente, o mar. Além da luz, também se discute um plano diretor para regulamentar novos empreendimentos, assim como a utilização do som e até uma possível limitação de turistas na alta temporada – a exemplo do quejáocorre no arquipélago de Fernando de Noronha (PE), unidade de conservação com status de Parque Nacional Marinho. “Acreditamos que essa preocupação para que o progresso chegue de forma organizada possa ser um bom exemplo para outros vilarejos”, afirma o atual administrador de Caraíva, Alírio Oliveira, mais conhecido como seu Alírio. “O turismo traz muito dinheiro, sim, mas se não for bem planejado pode trazer é muita pobreza.”
PROJETO Instalação de fios subterrâneos deve consumir R$ 3milhões
FUTURO Região pode ganhar museu natural e parque ecológico
COMEMORAÇÃO > Moradores festejaram os 470 anos de fundação
O vilarejo mais antigo do Brasil
Antes de se tornar um destino turístico no sul da Bahia, a vila foi sede de uma das maiores serrarias a vapor da região. Era uma atividade comum na época, sobretudo nos vilarejos cujos rios, por onde se escoava a madeira, chegavam ao mar. Na década de 40, uma grande explosão nas caldeiras da serraria (os destroçãos podem ser vistos até hoje na beira do Rio Caraíva) literalmente afundou a economia local ereduziu a população da vila, que era de cerca de 500 pessoas no início da década, para pouco mais de 150. Segundo historiadores, a maior parte dessa população era formada por mulheres, idosos, e crianças, uma realidade ainda hoje visível na forte dominância matriarcal das famílias de Caraíva. Para o futuro, as perspectivas para o vilarejo também vão além dos benefícios da chegada da luz. Recentemente, o Ministério do Meio Ambiente recebeu um amplo projeto com o objetivo de preservar a restinga nativa encontrada nas proximidades do local. A idéia é fazer um parque ecológico e até um museu natural. Será uma boa oportunidade para a pequena Caraíva agregar mais um título aos que já possui. Os mais destacados são o de Patrimônio da Humanidade pela Unesco, o de Área de Proteção Ambiental (APA Caraíva-Trancoso), o de zona de proteção rigorosa do Iphan e o de Reserva Extrativista Marinha (Resex). (A.P.)
4E JT TURISMO JORNAL DA TARDE QUINTA-FEIRA, 2 I 11 I 06
> Forrós esquentam a noite durante a temporada e fora dela.
Se estiver enferrujado,peça ajuda a um nativo
Emoção e comidada boa
> Dá para fazer trilhas ou encarar o horse board
Mas o ponto forte de Caraíva são as belezas naturais. O encontro do rio e domar forma uma barra onde se pode escolher entre nadar na água doce ou na salgada. Também é possível fazer trilhas a pé e a cavalo, partindo da praia ou do rio. As praias ao norte e ao sul da vila são o que há de melhor para representar as diferenças do litoral baiano: de um lado, a rica Curuípe, pólo do turismo rústico-chique. Do outro, a pacata Corumbau, reserva extrativista que parece parada no tempo. Ambas são acessíveis por trilhas ou de barco. No trajeto para Curuípe, preste atenção às lagoas bem no meio do caminho, ótimas para um banho refrescante. No meio da trilha para Corumbau, pode-se visitar a aldeia de Barra Velha, uma das mais tradicionais reservas pataxó do País. O rio que cruza o vilarejo é atração ímpar. Em boa parte margeado por manguezais, pode ser explorado com bóias, caiaques, de canoa ou, mesmo, para os mais esportistas, nadando. Em temporada de lua cheia, é possível fazer o passeio à noite, uma experiência mais do que eletrizante. Não se esqueça de visitar o Varandão– bar-restaurantedo outrolado do rio, com belo visual da Barra de Caraíva –, comer pastel de camarão no Boteco do Pará ao cair do sol e apreciar os quadros no Canto da Duca. Fora ouvir boa música ao vivo no Bar do Porto, se deliciar com os pratos do Brilho do Mar e, ufa!, curtir a noite na moderninha Pousada da Lagoa, ponto de encontro de turistas. Além,é claro, dos tradicionais forrós, diariamente durante a temporada e aos sábados fora dela. Se o corpo estiver enferrujado, não tenha medode pedir ajuda a um nativo ou a uma nativa. Eles terão prazer em ensiná-lo. Fora da temporada, procure também conhecer mais de perto os moradores. Há desde milionários excêntricos em busca de uma vida mais aprazível ao mais simples dos pescadores, todos com histórias interessantes para contar. E o que é melhor: quase não é possível notar quem é quem. A final, todo mundo anda de bermuda, camiseta e chinelo. E a pé. (André Palhano)